quinta-feira, abril 16, 2009

A guerra da mineração

Enquanto Eike Batista tenta vender minas de ferro para grupos chineses, seus adversários se movimentam para barrá-lo, em nome do interesse nacional

Caminhões exploram jazidas: no Brasil, Congresso pode vir a rediscutir o controle do subsolo

Faça as contas. A cada ano, o Brasil exporta US$ 16 bilhões em minério de ferro. É o carro-chefe da balança comercial brasileira, que tem como principal cliente a China. E o maior comprador do Brasil está tentando obrigar a Vale, líder global em exportações, a reduzir em 40% o preço do produto. Numa matemática simples, o Brasil perderia US$ 6,4 bilhões se os chineses vencessem a queda-de-braço. Ao mesmo tempo, grupos asiáticos, em especial a Chinalco, estão avaliando a compra de uma mineradora criada pelo empresário Eike Batista.

A MMX, que pertence ao homem mais rico do Brasil, dono de um patrimônio já superior a R$ 25 bilhões, está sendo oferecida a empresas do outro lado do mundo. este movimento de Eike deflagrou uma guerra surda em torno da mineração, que pode até trazer de volta a discussão sobre o caráter estratégico do subsolo. empenhado em vender seus ativos, Eike falou com exclusividade à dinheiro. "estou vendendo um Fusca, algo que não é estratégico para o país", disse ele (leia a entrevista abaixo).

Mas não é assim que pensam seus concorrentes. A Vale é contra a operação, muito embora não se manifeste oficialmente sobre o tema. o instituto Brasileiro de mineração, por sua vez, é incisivo. "se isso acontecer, vai vilipendiar a nossa competitividade", diz o presidente da entidade, Paulo Camilo Penna. "estamos falando de ativos estratégicos do ponto de vista comercial." o mal-estar transborda as fronteiras da mineração nas últimas três reuniões do instituto Brasileiro de siderurgia, o presidente Flávio Azevedo mencionou a questão de forma pouco amistosa.

O temor é de que, tendo acesso ao minério brasileiro de boa qualidade, os chineses comecem a subsidiar sua própria siderurgia e passem a tomar espaço do Brasil no mercado externo. Até mesmo a Federação das indústrias de São Paulo acompanha a movimentação. "A China não é uma economia de mercado e, por vezes, adota práticas desleais de comércio", diz o presidente da Fiesp, Paulo Skaf. "mas se eles vierem aqui para investir serão bem-vindos."

O debate em torno da questão mineral, aos poucos, chega ao meio político. na câmara dos deputados, o deputado Brizola neto (PDT-RJ) pretende incluir nas negociações sobre a reforma tributária a discussão do novo marco regulatório das minas, o que pode retomar a questão do capital estrangeiro. o setor foi aberto a investidores internacionais em 1995, depois de intensos debates no Congresso. "mas o mundo mudou e essa não é uma briga ideológica", diz o deputado. "o que importa é defender a balança comercial brasileira e a solidez da economia nacional." Órgão encarregado de vigiar o setor, o departamento nacional de produção mineral não tem poderes para vetar a transação de Eike. mas o diretor de fiscalização do DNPM, Walter Arcoverde, não esconde sua preocupação.

"Vender ativos importantes para os chineses é abrir mão de uma receita essencial para a manutenção das contas externas." no governo federal, no entanto, o tema ainda não entrou na lista de prioridades. A ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, que esteve envolvida em várias discussões empresariais nos últimos anos, hoje parece mais engajada na sua pré-campanha presidencial. no ministério de minas e energia, o ministro Edison Lobão parece estar em cima do muro. "hoje, não podemos fazer nada porque a legislação brasileira permite esse tipo de operação", disse ele à dinheiro. "mas o marco regulatório está em estudo e pode ser modificado."
Enquanto isso, do outro lado do mundo, esse mesmo debate está incendiando a Austrália, um país onde 10% do piB vem da mineração e onde uma das empresas locais, a rio tinto, vem sendo assediada pela Chinalco. Quem lidera a oposição à venda é o senador Barnaby Joyce. "se os chineses nunca nos deixariam ter acesso aos recursos naturais deles, por que devemos fazer o inverso?", indaga. os australianos estudam até ajudar outra empresa local, a BHP, a comprar a rio tinto.

Acompanhando tudo isso de perto, Eike tem pressa. Quer vender sua mineradora antes que essa mesma discussão esquente no Brasil. não por acaso, as ações da sua MMX estiveram entre os grandes destaques da Bovespa nas últimas semanas, pois os investidores apostam que o governo brasileiro não colocará nenhum obstáculo ao imenso apetite chinês por recursos naturais.

"Isso aqui não é estratégico"
Por Leonardo Attuch

O empresário Eike Batista, homem mais rico do Brasil, falou à DINHEIRO sobre sua intenção de vender sua mineradora para grupos chineses e prometeu que eles trarão uma siderúrgica para o Rio de Janeiro. Leia a seguir.

DINHEIRO - É bom para o Brasil vender minas aos chineses, que querem derrubar o preço do produto?
EIKE BAT ISTA - Nós compramos áreas em Minas Gerais e pagamos cerca de US$ 500 milhões. Depois, gastamos mais US$ 200 milhões para desenvolver as jazidas. Isso tem um valor. Se eu conseguir vender aos chineses, vou estar antecipando esse dinheiro hoje.
DINHEIRO - Mas a Austrália, por exemplo, estuda vetar a venda de uma grande mineradora para os chineses, alegando interesses nacionais.
EIKE - A Austrália é uma mina gigante, com reservas infinitas ao lado deles. Mas se os chineses vierem para o Brasil, não estarão levando as minas de graça. Além disso, eles têm o compromisso de implantar uma grande siderúrgica no porto do Açu, no Rio de Janeiro.
DINHEIRO - A venda da MMX fica condicionada à vinda de uma siderúrgica?
EIKE - Fica. A discussão do pacote é a venda da empresa vinculada à vinda de uma siderúrgica. E um dos sonhos do presidente Lula é criar uma ponte com a China para que indústrias de lá venham para cá e não apenas exportem seus produtos para cá.
DINHEIRO - Se eles tiverem acesso ao minério brasileiro, não terão também o poder de fixar o preço?
EIKE - Não. Por quê? Se você me perguntasse o que é estratégico e me pedisse para tirar o chapéu de homem de negócios, para pensar apenas como brasileiro, eu responderia que estratégicos são ativos com vida ilimitada, como Carajás. Estratégico é o urânio. Mas não nossas minas, que vão gerar 33 milhões de toneladas em 20 anos. Esse dinheiro vem para o Brasil e vai desenvolver outros negócios, como nosso porto.
DINHEIRO - Mas não há uma confusão entre o interesse do seu acionista e o interesse do País?
EIKE - Mas isso pode ser dito para qualquer ativo. Feliz eu se conseguir fazer essa operação, porque, caso contrário, eles farão com os australianos. O mais importante, no mundo de hoje, é conseguir vender seu produto.
DINHEIRO - Mas não existe escassez de minério. A Vale está fechando minas.
EIKE - Por isso o importante é conseguir um cara que compre 20 anos de minério, pagando hoje. Além disso, os chineses vão investir mais para colocar as minas em produção, vão pagar Imposto de Renda e vão contratar funcionários brasileiros. E vão botar uma siderúrgica aqui. Aliás, você sabia que várias siderúrgicas chinesas têm pedaços de minas da Vale? E que a CSN também vendeu minas para os japoneses?
DINHEIRO - Mas o sr. não concorda com o fato de que a Vale, uma empresa nacional, tem o poder de fixar o preço do minério, que carrega a balança comercial brasileira?
EIKE - Hoje, não mais. Num mercado aquecido era de um jeito, agora mudou. Isso vale para qualquer coisa, até mesmo para automóvel. Eu queria comprar um Honda Fit e tinha ágio. No caso do minério, os volumes são muito grandes. Todos sempre vão depender da Vale e o que eu estou vendendo é um Fusca.
DINHEIRO - Mas esse Fusca não será vendido junto com o porto financiado pelo BNDES, dando condições logísticas ainda melhores aos chineses?
EIKE - Não. No porto, o controle ficará comigo. E também não vou vender a OGX, de petróleo, nem a MPX, de energia térmica, e vou investir em indústria naval. No minério, eu estou vendendo, mas não sou um gringo que pega o dinheiro e manda para as Ilhas Cayman. Esse dinheiro fica incorporado ao patrimônio brasileiro, alavancando outros projetos do grupo.
DINHEIRO - E se os chineses quiserem vender o minério mais barato para suas indústrias?
EIKE - Isso não pode. Existe uma coisa chamada preço de transferência. Eles vão sempre pagar o preço de mercado. Senão, o Banco Central não deixa.
DINHEIRO - Mas eles fixarão o preço de mercado e enfraquecerão a Vale.
EIKE - Então você está dizendo que a Vale não pode ter um concorrente?
DINHEIRO - Pode, mas precisa ser chinês?
EIKE - É fácil conectar isso a um assunto estratégico e nacionalista. Mas se você estivesse falando de urânio para fazer bomba, era uma coisa. Fosfato também é de interesse nacional. Mas isso aqui é outra coisa. Não somos nada perto da Vale.
" A venda da MMX está condicionada à vinda de uma siderúrgica chinesa para cá"
" Não sou um gringo que quer vender a empresa e mandar o dinheiro para as Ilhas Cayman "
" Será que a Vale não pode ter um concorrente? Não somos nada perto deles. Somos um Fusca "

2 comentários:

Comella disse...

Interesante blog

Val-André Mutran disse...

Obrigado. Volte sempre.